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Mulheres do Psytrance: #3 Destaques na Intervenção Artística

As intervenções são manifestações que usam a arte como principal ferramenta para transmitir uma mensagem e promover questionamentos sociais. A arte está ligada diretamente com o universo da música eletrônica, complementa a imersão nesse mundo alternativo e transcendental que vivemos em cada festa, traz alegria, beleza e desperta a curiosidade das pessoas.

Dando continuidade a nossa serie de matérias “Mulheres do Psytrance”, hoje vamos falar sobre as mulheres da intervenção artística, convidamos duas intervencionistas que ganharam espaço se apresentando nas principais festas da cena, para falar um pouco sobre a vertente artística que é tão presente e importante no trance. Boa leitura!

Reprodução: : Isabela Leite Fotografia

Vanessa Paião

Nossa primeira entrevistada é a Vanessa Paião, diretora artística do coletivo Cia Erva Doce. Ela trabalha com teatro há 22 anos e com circo há 7 anos, mas a história com o trance começou quando conheceu Guilherme dos Santos, que já frequentava os eventos a bastante tempo, e hoje é marido e parceiro de trabalho de Vanessa “Já havia sido convidada várias vezes para conhecer, para trabalhar, mas tinha muito preconceito, achava que era muito tempo ouvindo uma música que eu não fosse gostar. Até que Guilherme me convidou para passar um carnaval com ele no festival SoulVision, onde descobri um mundo completamente diferente, cheio de possibilidades.”

Vanessa descobriu aos poucos a paixão por essa área “Primeiro veio à apreciação pela música, pelos ambientes proporcionados pelos festivais, depois veio a vontade de compor a cena trance, fazer parte, criar para ela. A SoulVision é um festival que contrata artistas incríveis de Intervenções e quando pude presenciar pela primeira vez, o encantamento foi imediato. Parecia que estava dentro de um sonho.”

Antes de atuar no cenário Psytrance Vanessa fazia teatro de grupo, e contou que quase sempre esse trabalho é composto por vários atores e a figura do diretor, que na maioria das vezes trabalha em função do próprio ego, e bolso. O que limita demais o artista. Ao olhar para a cena trance percebeu possibilidades infinitas de proporcionar arte integrada junto com outros artistas sem perder a autonomia e a identidade. Vanessa se encantou e mobilizou um grupo do qual fazia parte para começar a trabalhar nas festas e raves.

Vanessa mora no interior de São Paulo, em São José do Rio Pardo, onde segundo ela não oferece muito aos artistas locais. Por isso Vanessa teve uma iniciativa, após sua experiência no Soulvision “ Eu organizava um encontro com outros artistas e alunos em um espaço público, a beira do rio, muito bonito que se chama Herma. Esse encontro eu batizei de ‘Treinos e trocas ao ar livre’. No retorno da SoulVision, comentamos nesse encontro a beleza do que havíamos presenciado. E aos poucos começou a nascer a ideia de apresentarmos os trabalhos resultados do ‘Treinos e trocas ao ar livre’. E então começamos a buscar festivais para mostrar aquilo que vínhamos treinando…. depois que comecei a trabalhar em festivais encontrei a minha essência artística de fato , a minha força criativa de uma maneira libertadora. A ponto de me dedicar hoje apenas aos festivais em termos de apresentação. Mas também dou aula de teatro para crianças e pessoas com necessidades especiais na cidade onde moro.”

Reprodução: Rafaella Bertani

Perguntamos a Vanessa sobre a importância de mulheres nas intervenções artísticas dentro da cena e ela nos contou um pouco da sua opinião sobre o assunto “Não só dentro da cena trance, mas o fazer artístico feminino é composto de muita força, muita luta, mas levado ao público com o charme, a beleza, delicadeza, cuidado, entre outras características do feminino. O que é um aprendizado para vida, essa transformação que a mulher é capaz de fazer. Mas especificamente as mulheres da cena trance hoje, trazem muita investigação do sagrado feminino, se inspiram em deusas e estudos, se colocam em exposição com sua arte ritualizando energias da sua natureza, nesse mundo com valores conturbados, isso é maravilhosooooo. Porque foge completamente dos padrões midiáticos, levando ao público uma nova perspectiva do ser mulher, do ser artista”.

Assim como em outras profissões no trance, ser mulher é um desafio e exige sacrifícios. Nem tudo é fácil e Vanessa contou sobre as dificuldades de atuar nessa área das artes “Acredito que a maior dificuldade não foi, ainda é, a instabilidade financeira, toda dificuldade financeira do país abala os festivais. Outra dificuldade, é que a intervenção nasceu como uma manifestação de artistas que frequentavam os eventos, depois passaram a serem convidados para mostrar os seus trabalhos em troca da entrada e uma consumação, na maioria das vezes só a entrada. E esses artistas que começaram a compor a cena eram maravilhosos. Por isso, com o tempo isso se tornou um comprometimento maior, porque os próprios eventos começaram a encomendar determinados trabalhos. Enfim tornou-se um trabalho remunerado, como qualquer outro. Mas, muitas pessoas com interesse de estar nas festas começaram em troca de ingressos a propor atividades sem conteúdo ou treinamento de qualidade, muitos eventos para não ter que gastar ou por não poder gastar abriram as portas para essas pessoas. Isso dificulta a articulação de artistas que trabalham com intervenções. As vezes são atividades até perigosas. Mas é uma reflexão que só mudará quando todos os eventos conseguirem avaliar esse tipo de decisão.”


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O machismo resvala no meio artístico também, e Vanessa contou que já presenciou situações de desrespeito com outras mulheres dentro da cena, como uma vez em que viu seguranças homens intervindo em caso de agressão física. Em relação à intolerância por parte dos homens que trabalham na cena, sobre o trabalho das mulheres que exercem a mesma função, ela contou que existe sim, não de forma declarada, mas acontece de uma forma maquiada. E fez um relato de quando passou por uma situação desconfortável de assédio “Havia acabado de sair de uma performance, estava com figurino e equipamentos aguardando meu marido atrás do palco e um DJ israelense se aproximou e insistiu várias vezes em me tocar. Tive que pedir ajuda a um amigo fotógrafo para que ele parasse. O evento tomou conhecimento e esteve do meu lado. Outros festivais também me apoiaram. Esse episódio inclusive, levou um evento a me contratar para fazer um intervenção sobre assédio durante o set do DJ que causou esse constrangimento. Foi comovente a reação das mulheres presentes, me senti falando por muitas que estavam ali.”

Nos momentos em que Vanessa não está se apresentando ela continua inserida no mesmo contexto “Tudo que faço fora das apresentações é me preparar para elas, pesquisas, estudos, treinos, confecção de figurinos, planejamento de novas performances, produção. Enfim, acho que a maioria dos artistas de todas as áreas são meio assim, apaixonados. Depositam a felicidade no trabalho, na realização de cada coisa…”

Reprodução: Jéssica Borges

Falar de arte e manifestações é falar também de liberdade de expressão. Vanessa acredita que as mulheres artistas tem esse espaço na cena, assim com as demais mulheres, mas contou que pode ocorrer uma falha na interpretação principalmente através das mídias “Sinto que a liberdade que hoje se tem nas festas eletrônicas é comprometida pela internet. Às vezes você está no evento vê uma mulher se comportando de forma livre e sem nenhum tipo de incomodo. Dali dois minutos a mesma está em uma filmagem de celular em todas as redes sociais, sendo julgada e apedrejada, da pior forma por milhões de pessoas que estavam no evento, até estrangeiros com culturas diferentes, que não sabem nada sobre aquela pessoa e lugar onde ela está. Isso acontece também com nossas performances, às vezes um indivíduo não entende o contexto daquilo que está vendo, porque a cena hoje está aberta para todo tipo de público, todos tem acesso, inclusive gente que nunca teve acesso a nenhum tipo de apresentação artística. Essa pessoa às vezes faz uma leitura deturpada lança nas redes do seu jeito e você se vê lá na mesma condição diante de infinitas pessoas, sem controle nenhum da sua imagem. Então é preciso saber lidar com isso, muitas vezes a gente tá levando a você algo novo, abrindo novas possibilidades, criações com linguagens artísticas que ninguém vai ver na TV, o público é formado por pessoas muito diferentes, para cada um a informação chega de um jeito.”

Pedimos para ela compartilhar uma situação engraçada ou curiosidade sobre atuar nesse meio “Em uma Maya, fizemos o ritual de abertura com uma maquiagem corporal muito tribal, alguns bailarinos foram embora de madrugada da festa, tinham esquecido de levar toalhas, então decidiram tomar banho quando chegassem em suas casas. Mas tiveram um problema com o carro, o celulares sem bateria, tiveram que pedir ajuda para os carros que passavam, ninguém parava! Todos que passavam tinham medo daqueles índios no asfalto. A sorte que polícias que estavam fazendo a segurança da festa, viram a apresentação e passaram por aquele caminho e ajudaram eles voltar. Mas eles contando isso para mim depois, foi demais, a mistura de dó com a vontade de querer ter visto a cena era do mesmo tamanho kkkk “

Vanessa deixou um recado para outras mulheres que trabalham ou querem trabalhar nesse ramo…

“Acredito que para trabalhar com resultados de qualidade é preciso primeiro gostar desse ambiente, entender o que ele significa para você e o que você gostaria de proporcionar ao público (ter conteúdo artístico). Porque não é fácil fazer apresentação em uma festa na floresta! Kkk. O público mesmo está sujeito a vários imprevistos, que comprometem o conforto o qual estamos acostumados, porque sabemos que a natureza quem está no comando. O artista tem que ser mais resistente ainda, porque uma coisa é molhar, sujar, quebrar, objetos de acampamento. Outra situação é quando o mesmo acontece com equipamentos de trabalho caros. O esforço físico também é outro, desde a bagagem até a apresentação, horas sem dormir e por aí vai.”

Reprodução: Brunno Kawagoe

Liliane Azevedo

Nossa próxima entrevistada é Liliane Azevedo, ela é diretora artística e produtora cultural de performances independentes no Coletivo Filhos da Terra e na CIA Artística Cirkomicos. Com a magia do Teatro, Circo e a Dança, Lili agrega toda sua bagagem cultural e emocional, trazendo performances únicas e acredita na evolução através da arte. Começou a carreira como intervencionista em 2016 quando teve a oportunidade de realizar uma performance com o artista Jance Godoy que já era do movimento trance “Desde de muito cedo já participava de manifestações artísticas, e foi nas artes cênicas nas aulas de teatro, corpo e manipulação que me encontrei como um ser de mil faces e formas, utilizava a arte como forma de manifestar o meu eu interior e utilizava as aulas de teatro como terapias pra mente e a alma e conseguia com isso manifestar personagens que conseguiam exteriorizar os meus sentimentos. Hoje busco cada vez mais o aprimoramento estudando e participando de capacitações para a área.”

Ela decidiu atuar no trance por ser um ambiente com pessoas de percepções abertas e receptivas, viu na cena um ótimo local para conseguir materializar muitas ideias que eu tinha e conseguir passar as mensagens em ambientes férteis. Lili contou que já enfrentou preconceito por ser mulher para conquistar o espaço que tem hoje “Mesmo no ano de 2020 são raras as mulheres que de alguma forma não tenham sofrido algum preconceito por ser mulher e querer ter seu espaço em qualquer cena ou situação”.

Reprodução: Lucas Caparroz

Quando dizemos que nossa sociedade é “machista” em geral, não estamos falando de indivíduos declaradamente machistas. Nem de atitudes isoladas de machismo explícito, ou de discriminação proposital, racionalizada, das mulheres. Estamos falando das situações e de um contexto geral. Perguntamos se ela já sofreu algum tipo de assedio nessa área seja verbal, físico ou mental e a resposta foi positiva, leia o relato da artista:

“Uma vez precisava me trocar para uma intervenção e o evento não ofereceu camarim para performista (como muitos outros eventos da cena) então tive que me arrumar atrás do palco, estava eu, mais um artista e uma amiga que estava nos ajudando na montagem, enquanto eu ia sendo pintada alguns seguranças fizeram comentários chatos e chamaram outros seguranças para ficar olhando fiquei bem constrangida, meus companheiros vendo a cena pediu para eles pararem, depois disso consegui reverter a situação colocando todo o sentimento pra fora durante a intervenção. Foi uma situação que eu consegui colocar muita potência pra criar o conteúdo da cena sabe, e me fez crescer também como artista e mulher . Depois disso inclusive perdi a vergonha de fazer personagens que só tinham pintura corporal. Foi a primeira que fiquei com os seios de fora em público! O mesmo movimento dessa liberdade do nosso corpo eu vi acontecer com as meninas que eu trabalho no Coletivo Filhos da Terra , tivemos até um ritual de passagem por esse momento, sempre trazendo essa liberdade alinhada a arte, o corpo como manifestação da arte” revela Lili.

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Com tanta experiência e vivências nessa área, Lili sabe bem a importância de mulheres nas intervenções artísticas dentro da cena “A mulher é uma manifestação sublime, tudo oque faz com amor reluz, hoje na cena temos mulheres realizando lindas performances artísticas, com riqueza de cultura e representatividade, com verdadeiras histórias pulsando arte, a mulher não é importante para a arte, mulher é arte. Ainda são colocadas muitas limitações, seja social, física ou mental que impossibilita e inviabiliza muitas mulheres de se expressarem de fato livremente. Hoje criando uma rede de apoio e com cada vez mais mulheres se unindo, vamos ao poucos criando um ambiente seguro para a livre manifestação artística da mulher, seja na cena trance ou em qualquer outro espaço que a mulher tem que ter e ocupar. Que esse movimento seja crescente”.

Fora do trabalho, assim como Vanessa, ela também está envolvida com os processos artísticos “Criar, estou sempre criando coisas, seja ideias, artesanatos, neuroses kkk. Mas eu trabalho diariamente com arte, quando não estou me apresentando estou vendendo artesanatos ou estou fazendo criações de conteúdo para o meus projetos”.

As interações com o público são sempre inusitadas, além dos relatos sérios sobre questões delicadas, dentro da cena acontecem situações engraçadas e Lili também compartilhou com a Hï BPM “Uma vez estávamos entregando uns cristais naturais em uma Intervenção ( Mensagem oculta nos cristais da mãe Terra) e uma moça pensou que era de comer, e quis colocar na boca o cristal que demos a ela, tivemos que intervir o ato pra ela não morder uma pedra kkkk”


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Para finalizar, Liliane deixou também o seu conselho de inspiração para outras mulheres que trabalham ou querem trabalhar nesse ramo.

“Ainda estou adentrando esse universo e também me encontrando como um ser que ‘está’ e não um ser que é ‘permanente’, vou me permitindo ser e com isso consigo levar meu trabalho em locais e pessoas que nem imaginava, e se permitir ser essência, é uma luta diária e cansativa, mas vale a pena”.

“Apenas se permitam, estudem, se conheçam, e busquem sua verdade, não há nada que uma mulher não possa fazer”

Reprodução: Victor Hakuna

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